“Ouve a voz do Bom Pastor”

Hoje é o domingo do Bom Pastor, o Quarto Domingo da Quadra da Páscoa. Ao meditar nas palavras dos textos de hoje, fiz uma verdadeira viagem no tempo e lembrei-me de minha infância, quando meu pai colocava seus discos de vinil para tocar em nossa vitrola. Cresci ouvindo cantores seculares tais como: Emilinha Borba, Núbia Lafaiate, Orlando Silva, Maísa, Cartola, dentre outros grandes nomes da música brasileira e também cantores cristãos, tais como: Luiz de Carvalho, Sueli, Feliciano Amaral, dentre outros e inúmeros corais.

Imediatamente, ao ler o texto do Evangelho de hoje, um hino do cantor Feliciano Amaral tomou conta da minha memória e assim está até agora: “Ouve a voz do Bom Pastor”. Seus versos dizem o seguinte:

Na manhã da vida, sob o lindo véu

Ouve a voz do bom Pastor!

Quando as flores trazem orvalhado véu

Ouve a voz do bom Pastor!

  

REFRÃO

Segue! Segue! Sempre segue a Cristo!

Ouve o convite do Seu grande amor

Segue! Segue! Sempre segue a Cristo!

Ouve, ouve a voz do bom Pastor!

 

 Onde os lírios crescem, nos conduzirá

Ouve a voz do bom Pastor!

Onde os verdes pastos, quietas águas há

Ouve a voz do bom Pastor!

  

Se nos montes frios, um cordeiro errar

Ouve a voz do bom Pastor!

Cristo irá buscá-lo, té que o possa achar

Ouve a voz do bom Pastor!

***clique no link abaixo para ouvir a música:

BomPastor

Esta linda letra, de melodia mais linda ainda, nos convida a ouvirmos a voz do Bom Pastor, que é Jesus, em todos os momentos da nossa vida.

As ovelhas tem uma peculiaridade que é muito interessante: elas se acostumam com a voz da pessoa que comanda o rebanho e não saem do lugar caso outra pessoa tente chamá-las. Elas só seguem o seu verdadeiro pastor.

Infelizmente, durante toda a História da Cristandade, como também atualmente, temos sido testemunhas oculares de vozes que não são do Bom Pastor e temos visto muitas ovelhas ouvindo e seguindo “outras vozes”. Vozes estas que dizem falar pelo Bom Pastor e até mesmo ser a voz Dele. Entretanto, essas vozes são de enganadores, de pessoas que se passam por servos do Bom Pastor, de impostores que trabalham única e exclusivamente por dinheiro, que não se importam, de fato, com as ovelhas.

Por outro lado, também temos testemunhado ovelhas que parecem querer ser enganadas, pois acreditam no inacreditável, dão méritos e créditos a impostores que descaradamente falam de si para si mesmos, num verdadeiro festival de egos inflamados. Se de um lado temos os impostores, espertalhões que usam e abusam da fé e da boa fé de um povo sofrido e incauto, por outro lado também vemos pessoas que vão a determinadas igrejas apenas em busca de benesses, sem um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Para não cairmos nesse “buraco negro” do falso profetismo, precisamos nos dedicar ao estudo das Escrituras com muita disciplina e afinco, para sermos ludibriados por falsos pastores, por falsos profetas. Um estudo decente, contemporâneo, contextualizado das Sagradas Escrituras, aliado à uma vida dedicada à oração e ao serviço, nos deixarão em alerta para não cairmos em “contos vigário gospel”.

“Ouve a voz do Bom Pastor” – nos alerta a letra do belo hino do pastor e cantor Feliciano Amaral. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz e me seguem”, disse Jesus.

Jesus é o nosso Bom Pastor. Ele nos chama e nós o seguimos. Precisamos estar sempre alertas em relação aos impostores, pois eles imitam a voz do nosso Pastor, mas são apenas empregados mercenários que trabalham apenas por dinheiro; a mensagem deles não tem nada a ver com a mensagem de Jesus. Na hora da dificuldade, eles fogem e abandonam o rebanho. O Bom Pastor faz de tudo por nós, suas ovelhas, inclusive deu sua própria vida na cruz do Calvário.

Que sempre ouçamos apenas a voz do nosso Bom Pastor!

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro - 4º. Domingo da Páscoa, 29/04/2012 – Ezequiel 34.1-10; Salmo 23; 1 João 3.1-8; João 10.11-16

 

A fé que vem dos nossos pais

“A Verdade é meu Senhor Jesus Cristo, a quem vós perseguis, e eu sou servo de meu redentor Jesus Cristo e, Nele confiando, me pus no meio de vós para dar testemunho da Verdade.”

Testemunho atribuído a São Jorge, Mártir

 

 

Neste 3º domingo da Páscoa, estamos comemorando a Festa de São Jorge, Mártir, que foi degolado por ordem do imperador romano Diocleciano, no dia 23 de abril de 303, após ter sido submetido a inúmeras torturas a fim de que ele negasse a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo.

São Jorge é patrono da Igreja da Inglaterra, da Inglaterra como País, de Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, da cidade de Moscou, extraoficialmente da Cidade do Rio de Janeiro, como também dos escoteiros, do time Corinthians e da cavalaria do Exército Brasileiro. Também, ao redor do mundo, é patrono de muitas paróquias católicas ortodoxas, romanas e anglicanas. É um santo muito querido em nosso País, pois nos identificamos com sua coragem e fé em Deus, já que também por muitas vezes, assim como reza a lenda atribuída a ele, também enfrentamos diversos “dragões” de todas as ordens: seja na saúde, na educação, na política, no governo oficial e também no “paralelo”. Somos um povo de luta, de garra, de fé, que não desiste facilmente e talvez seja esse nosso maior elo e identificação com o santo mártir, independentemente da religião que professemos.

Falar sobre os santos, especialmente os mais populares, muitas vezes gera dúvidas na mente das pessoas e nossa missão, enquanto cristãos, educadores oficialmente ou não, é explicar ao povo a verdade e ajudar as pessoas a saírem da ignorância, da falta de conhecimento.

Em se tratando de nós, anglicanos, majoritariamente e ouso dizer oficialmente, cremos que os santos fazem parte da “comunhão dos santos”, sobre a qual recitamos no Credo Apostólico. Eles fazem parte da Igreja Triunfante e estão sempre em oração por nós, a Igreja Militante. São os nossos amados irmãos, parentes, amigos, conhecidos ou desconhecidos, todas as pessoas que partiram e que encontraremos, um dia, na glória do Senhor. Eles nos inspiram, com seu testemunho de vida, a amarmos a Deus acima de tudo e de todas as coisas e em nossas orações, pedimos ao Pai que possamos seguir seu exemplo de amor e dedicação a Ele e ao seu Reino.

Algumas pessoas nos perguntam sobre a oração aos santos, se no anglicanismo nós oramos aos santos, se pedimos a intercessão deles. Não temos uma postura dogmática sobre isso, pois somos livres para exercitarmos nossa fé da forma como Deus se manifestar em nosso coração. Nós, cristãos anglicanos, cremos que não há mortos, pois todos estamos vivos no Senhor (Lc 20.38). Quem se sente à vontade para pedir algo a algum dos santos, não há mal algum, de acordo com o que cremos, pois é como quando pedimos a alguém aqui na terra: “ore por mim”. Já que os fiéis falecidos estão em constante oração e comunhão com Deus, eles podem interceder por nós e vice-versa, uma vez que temos por tradição o “Ofício em Memória”, a popular “missa de sétimo dia” (ou de mais tempo). Contudo, o mais usual mesmo, é pedirmos graças sempre diretamente a Deus. Por isso, nossas orações oficiais, no Livro de Oração Comum, são sempre direcionadas a Deus, pedindo a Ele que possamos ser como o santo em questão. Exemplo disso temos na liturgia de hoje, onde mencionamos o santo mártir várias vezes e pedimos a Deus para seguirmos o seu exemplo de vida. Assim é a nossa fé, a nossa tradição, a nossa forma de sermos igreja.

Que o nosso amor por Jesus Cristo seja sempre tão grande como foi o dos santos mártires, que deram sua vida por amor a Jesus e aos seus ensinamentos. Que aprendamos com eles a sermos mais corajosos, dispostos, firmes e constantes na obra do Senhor, pois Nele, o nosso trabalho não é em vão (1 Co 15.58).

Que Deus nos abençoe com a coragem de Jorge, o santo mártir, em nome de Jesus.

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro – 3º domingo da Páscoa – Festa de São Jorge, Mártir – 22/04/2012 – Apocalipse 7.13-17; Salmo 116.1-8; 1 Pedro 4.12-19; Mateus 10.16-22

Em caso de dúvida, é melhor optar pela cautela!

Meditação baseada na homilia do

Revdo. Carlos Calvani, para o

Segundo Domingo da Páscoa de 2009.

 

O texto do Evangelho de hoje, traz a referência mais conhecida sobre o  Apóstolo Tomé. É o episódio que lhe rendeu a terrível fama de incrédulo, de descrente. Curiosamente, pelo fato desse texto ter ficado tão famoso, outras passagens, que nos trazem informações muito importantes sobre Tomé, acabaram ficando quase que completamente esquecidas. O que nos mostra o quanto uma afirmação errônea pode nos levar a interpretações equivocadas não apenas da Bíblia, como também sobre pessoas às quais conhecemos ou não. Vejamos que passagens são essas.

No capítulo 10 do Evangelho de João, Jesus identifica-se como sendo o Filho de Deus e os judeus tentam matá-lo. Mas Jesus foge da Judéia e sai ileso. Entretanto, já no capítulo 11, Jesus recebe a notícia de que seu amigo Lázaro havia morrido e resolve voltar para a Judéia, a fim de encontrar-se com Maria e Marta, irmãs de Lázaro e que também lhes eram muito amigas. Os discípulos, justificadamente com muito medo, lhe interrogam se Ele realmente queria voltar para o lugar onde queriam matá-lo. Isso lhes parecia muito estranho. E, nesse momento, Tomé, com toda sua coragem, declara: “Vamos nós também, para morrermos com ele!” (Jo 11.16). O restante da história, nós sabemos: a ressurreição de Lázaro. Entretanto, há um grande detalhe: com sua coragem, Tomé influenciou os demais apóstolos positivamente. Caso o primeiro a falar desse uma declaração contrária e justificada, todos o seguiriam e a história até poderia ter tido outro fim! Todavia, Tomé foi forte, corajoso e companheiro de Jesus naquele momento difícil.

Uma outra ocasião, na qual Tomé aparece, é em João 14.6. Em alguns versículos anteriores a esse texto, Pedro havia feito uma declaração bombástica, ao dizer, ufanisticamente, sem pensar nas consequências da sua afirmação, que daria a própria vida por Jesus e é repreendido pelo Mestre, que afirma que, em breve, Pedro o negaria 3 vezes. Todos os Apóstolos estavam cheios de dúvidas; ninguém estava entendendo direito o que Jesus queria dizer, mas tinham vergonha de perguntar. E, nesse momento, Tomé toma a palavra, cheio de coragem, e pergunta: “Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?” – Tomé sempre demonstrou ser o que era, sem máscaras, sem querer parecer melhor do que ninguém. Ele era um ser humano e, como tal, comportava-se. Diferente de muitos de nós, que muitas vezes escondemos quem realmente somos e vestimos um manto de falsa santidade, falsa inteligência, num completo falso self.

A terceira passagem na qual Tomé aparece, encontra-se no texto do Evangelho de hoje. Diferentemente do que ouvimos normalmente afirmar-se sobre ele, que era um cético, descrente etc, Tomé era um homem que levava sua fé tão a sério, que não saia acreditando em qualquer relato fabuloso que lhe contassem. Ele era um homem cauteloso, prudente. Muitas vezes, ao lermos essa passagem e “crucificarmos” Tomé por sua suposta incredulidade, nos esquecemos que nenhum dos Apóstolos acreditou, de primeira, no relato das mulheres que foram ao túmulo e o encontraram vazio! Ninguém acreditou nelas! E então, só Tomé era o descrente?

Quando Jesus apareceu aos discípulos, todos estavam trancados dentro de casa, morrendo de medo da fúria dos líderes judeus. Um medo até justificável, porém era medo puro e simples. Nosso personagem principal de hoje, ao contrário, não estava lá com eles. Onde, então, ele deveria estar? Talvez, andando pelas ruas de Jerusalém, sem se importar muito com o perigo, ele estivesse buscando indícios sobre Jesus. Talvez tivesse ido ao túmulo conversar com os guardas. Possivelmente, ele não estava trancado com os demais companheiros exatamente porque era um homem que buscava a verdade dos fatos, que buscava evidências para embasar a sua fé. Ele não se conformava apenas com um “ouvi dizer”, ele queria saber a verdade sobre os fatos. Quando ele chegou na casa onde os discípulos estavam, estes lhe disseram que Jesus havia aparecido para eles. É lógico que ele não iria acreditar nessa história, sem que ele mesmo visse Jesus. Lembremos novamente que nenhum dos discípulos acreditou no relato das mulheres e que Jesus sempre disse para terem cuidado com o falsos messias que apareceriam dizendo serem o Cristo!

Oito dias depois, Jesus apareceu novamente na tal casa e dessa vez Tomé estava presente. Dentre muitas coisas, esse texto nos leva a crer que Jesus apareceu de novo apenas por causa de seu amado discípulo Tomé. Jesus conversou com ele e lhe mostrou as provas de que realmente era Ele, Jesus, quem estava ali, ressuscitado. Nesse momento, Tomé foi tomado por grande alegria e suas dúvidas e buscas se dissiparam. Um novo homem, mais forte e mais humano ainda, nasceu naquele instante. Jesus o amava tanto que fez questão de aparecer para ele e nos mostrar que Ele não discrimina ninguém, que buscar a verdade é saudável e que não devemos dar ouvidos a qualquer boato que ouvirmos por aí. E Tomé soube reconhecer e agradecer esse amor a ele demonstrado.

Há fortes indícios históricos de que Tomé foi quem levou o Evangelho à Índia. Colonizadores ingleses e portugueses, no século XVI, ao chegarem a essa região, encontraram uma cripta dedicada a ele e também algumas relíquias, dentre elas, um pedaço de lança que, segundo consta, fora usada pelos hindus para matá-lo.

As histórias de Tomé nos ensinam que devemos ser pacientes com as pessoas que já não creem mais nas instituições religiosas, devido a tantos lobos vestidos de cordeiros estarem no comando de muitas igrejas nos dias atuais.

Sua vida também nos ensina que devemos ter paciência com aquelas pessoas que deixaram de crer em Deus, devido a alguma desilusão que tiveram em suas vidas.

Devemos ter compaixão e tentar compreender a todas as pessoas, com suas dúvidas, descrenças, superstições, desilusões etc, sabedores de que Deus é quem faz a obra e apenas Ele tem o poder de transformar o ser humano. O encontro com Jesus é algo pessoal e comandado por Deus, sendo cada um(a) de nós, instrumentos em suas mãos para levar, através do nosso testemunho pessoal, das nossas boas obras, sua mensagem de amor e compaixão a todas as criaturas.

Que possamos aprender com Tomé a sermos mais humanos, mais autênticos e mais cristãos.

 Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL – DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO - 2º. Domingo da Páscoa – 05/04/2012 – Isaías 26.2-9; Salmo 111; 1 João 5.1-6; João 20.19-31

“Quem vai tirar para nós a pedra que fecha a entrada do túmulo?” Marcos 16.3

Finalmente chegamos à maior festa da Cristandade, a Páscoa do Senhor. O dia no qual comemoramos a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, da esperança sobre a desesperança. Jesus ressuscitou e está entre nós!

Como cristãos, precisamos valorizar cada momento desse dia único em nosso calendário. Esse é o dia de renovarmos nossas esperanças, nossa fé, nossa alegria por fazermos parte de uma família tão imensa, que já atravessa dois milênios.

Se fizermos um balanço das nossas vidas, perceberemos quantos obstáculos já vencemos, quantas incertezas já ficaram para trás, quanta dor e tristeza já foram suplantadas por alegrias e vitórias. Cada pequena batalha vencida é motivo para comemorar e agradecer a Deus pela sua bondade para conosco e também, cada derrota, cada queda, cada perda é motivo para nos fortalecermos mais ainda, para chegarmos mais perto Daquele que nunca nos abandona.

Os textos de hoje nos falam sobre esse otimismo que precisa fazer parte da nossa vida. Temos momentos ruins sim, mas podemos suportar todas as coisas, naquele que nos fortalece, conforme afirmou São Paulo em Filipenses 4.13.

As mulheres que foram embalsamar o corpo de Jesus, estavam preocupadas com a grande pedra que fechava a entrada do túmulo: “Quem vai tirar para nós a pedra que fecha a entrada do túmulo?”  A preocupação delas não era sem motivo, pois, naquela época, era costume usar grandes e pesadas pedras para fechar os túmulos que, dentro de si continham um corpo frio, sem vida, o fim da esperança, o fim da vida. Os judeus acreditavam na ressurreição, mas no fim dos tempos, quando chegasse o Messias e, para isso, embalsamavam os corpos daqueles que morriam. Elas queriam embalsamar Jesus, mas uma grande pedra ocupava o centro das suas preocupações. Quem iria tirar aquela pedra enorme da entrada do túmulo?

Quantas vezes não nos deparamos com essa mesma questão: quem vai tirar do nosso caminho a pedra que impede que façamos o que queremos e/ou precisamos fazer? Muitas vezes essa pedra-problema é tão grande que duvidamos que ela realmente possa ser removida e, diante disso, deixamos nossa vida ficar parada, nossos sonhos se estagnarem, nossas esperanças se esvaírem, pois aquela pedra parece-nos intransponível e desanimadora.

A mensagem de hoje para nós é que Deus pode remover qualquer pedra ou qualquer outra coisa que esteja impedindo o nosso caminhar!

No texto de Isaías, capítulo 25.6-8, nós lemos:
“No monte Sião, o SENHOR Todo-Poderoso vai dar um banquete para todos os povos do mundo; nele haverá as melhores comidas e os vinhos mais finos. E ali ele acabará com a nuvem de tristeza e de choro que cobre todas as nações. O SENHOR Deus acabará para sempre com a morte. Ele enxugará as lágrimas dos olhos de todos e fará desaparecer do mundo inteiro a vergonha que o seu povo está passando. O SENHOR falou.”

 

Deus está sempre ao nosso lado e sabe do nosso sofrimento, das nossas angústias, das nossas dificuldades. Isso não significa que devemos sempre “bancar os fortões”, nunca chorar, numa tentativa errônea de sermos “super pessoas”. Não, não é isso. Os momentos de tristeza, de angústia, de dúvida, fazem parte da nossa caminhada e precisamos nos apoiar mutuamente quando isso acontecer. Jesus também passou por isso horas antes e durante o seu martírio na cruz do Calvário. O sofrimento faz parte da vida, mas ele não dura para sempre, pois logo após a morte, vem a ressurreição. Assim que morremos nesse corpo, ressuscitamos em um corpo glorificado na presença de nosso Pai e, junto Dele, passamos a viver uma nova vida, com novos trabalhos e perspectivas. Nossa fé deve ser alimentada nessa certeza, pois nada pode nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus (Rm 8.37-39). Tudo passa, mas o amor de Deus permanece para sempre, para com todas as pessoas do mundo, para com toda sua criação.

Em uma mesma situação, dois problemas foram resolvidos para aquelas mulheres discípulas de Jesus: A pedra foi retirada do túmulo e o corpo de Jesus não estava mais lá, pois havia se transformado em um corpo glorioso, havia ressuscitado.

Quando Deus age em nossa vida, é por inteiro. Se algum problema nos atormenta já por algum tempo, aparentemente sem solução, confiemos mais em Deus, pois na hora certa, Ele providenciará a retirada da pedra que nos impede de avançar. Lembrando que, em muitos casos, nós mesmos precisaremos aumentar nossa fé, coragem e autoestima e retirarmos, com nossas próprias forças, as pedras que aparecerem em nossa frente. Entretanto, nunca estaremos sozinhos, pois Deus nos guiará e nos dará condições para enfrentarmos todas as batalhas.

Cristo ressuscitou, louvado seja Deus! Aleluia!

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro - PÁSCOA DO SENHOR – 08/04/2012 – Isaías 25.6-9; Salmo 118.14-24; Colossenses 3.1-4; Marcos 16.1-8

Jogral – Leitura do Evangelho no Domingo de Ramos

O Santo Evangelho de NS Jesus Cristo, conforme São Marcos, capítulo 15, começando com o versículo 1:

 

15.1   Assim que amanheceu, os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes dos judeus, e com os mestres da Lei, e com todo o Conselho Superior e fizeram os seus planos. Eles amarraram Jesus, e o levaram, e entregaram a Pilatos.


15.2   Pilatos perguntou: — Você é o rei dos judeus? — Quem está dizendo isso é o senhor! — respondeu Jesus.


15.3   E os chefes dos sacerdotes faziam muitas acusações contra ele.


15.4   Então Pilatos fez outra pergunta: — Você não vai responder? Veja quantas acusações estão fazendo contra você!


15.5   Porém Jesus não disse mais nada, e Pilatos ficou muito admirado com isso.


15.6   Em toda Festa da Páscoa, o Governador costumava soltar um dos presos, a pedido do povo.


15.7   Naquela ocasião um homem chamado Barrabás estava preso na cadeia junto com alguns homens que tinham matado algumas pessoas numa revolta.


15.8   A multidão veio e começou a pedir que, como era o costume, Pilatos soltasse um preso.


15.9   Então ele perguntou: — Vocês querem que eu solte para vocês o rei dos judeus?


15.10   Ele sabia muito bem que os chefes dos sacerdotes tinham inveja de Jesus e que era por isso que o haviam entregado a ele.


15.11   Mas os chefes dos sacerdotes atiçaram o povo para que pedisse a Pilatos que, em vez de soltar Jesus, ele soltasse Barrabás.


15.12   Pilatos falou outra vez com o povo. Ele perguntou: — O que vocês querem que eu faça com este homem que vocês chamam de rei dos judeus?


15.13   E eles gritaram: — Crucifica!


15.14   — Que crime ele cometeu? — perguntou Pilatos. Mas eles gritaram ainda mais alto: — Crucifica! Crucifica!


15.15   Então Pilatos, querendo agradar o povo, soltou Barrabás, como eles haviam pedido. Depois mandou chicotear Jesus e o entregou para ser crucificado.


15.16   Aí os soldados levaram Jesus para o pátio interno do Palácio do Governador e reuniram toda a tropa.


15.17   Depois vestiram em Jesus uma capa vermelha e puseram na cabeça dele uma coroa feita de ramos cheios de espinhos.


15.18   E começaram a saudá-lo, dizendo: — Viva o Rei dos Judeus!


15.19   Batiam na cabeça dele com um bastão, cuspiam nele e se ajoelhavam, fingindo que o estavam adorando.


15.20   Depois de terem caçoado dele, tiraram a capa vermelha e o vestiram com as suas próprias roupas. Em seguida o levaram para fora a fim de o crucificarem.


15.21   No caminho, os soldados encontraram um homem chamado Simão, que vinha do campo para a cidade. Esse Simão, o pai de Alexandre e Rufo, era da cidade de Cirene. Os soldados obrigaram Simão a carregar a cruz de Jesus


15.22   e levaram Jesus para um lugar chamado Gólgota. (Gólgota quer dizer “Lugar da Caveira”.)


15.23   Queriam dar a ele vinho misturado com um calmante chamado mirra, mas ele não bebeu.


15.24   Em seguida os soldados o crucificaram e repartiram as suas roupas entre si, tirando a sorte com dados, para ver qual seria a parte de cada um.


15.25   Eram nove horas da manhã quando crucificaram Jesus.


15.26   Puseram em cima da cruz uma tabuleta onde estava escrito como acusação contra ele: “O Rei dos Judeus”.


15.27   Com Jesus, crucificaram também dois ladrões: um à sua direita e o outro à sua esquerda.


15.28   [Assim se cumpriu o que as Escrituras Sagradas dizem: “Ele foi tratado como se fosse um criminoso.”]


15.29   Os que passavam por ali caçoavam dele, balançavam a cabeça e o insultavam assim: — Ei, você que disse que era capaz de destruir o Templo e tornar a construí-lo em três dias!


15.30   Pois desça da cruz e salve-se a si mesmo!
15.31   Os chefes dos sacerdotes e os mestres da Lei também caçoavam dele, dizendo: — Ele salvou os outros, mas não pode salvar a si mesmo!


15.32   Vamos ver o Messias, o Rei de Israel, descer agora da cruz e então creremos nele! E os ladrões que foram crucificados com Jesus também o insultavam.


15.33   Ao meio-dia começou a escurecer, e toda a terra ficou três horas na escuridão.


15.34   Às três horas da tarde Jesus gritou bem alto: — “Eloí, Eloí, lemá sabactani?” Essas palavras querem dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”


15.35   Algumas pessoas que estavam ali ouviram isso e disseram: — Escutem! Ele está chamando Elias!


15.36   Alguém correu e molhou uma esponja em vinho comum, pôs na ponta de um bastão, deu para Jesus beber e disse: — Esperem! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz!


15.37   Aí Jesus deu um grito forte e morreu.


15.38   Então a cortina do Templo se rasgou em dois pedaços, de cima até embaixo.


15.39   O oficial do exército romano que estava em frente da cruz, vendo Jesus morrer daquele modo, disse: — De fato, este homem era o Filho de Deus!

 

O Evangelho do Senhor.

As pessoas ainda querem ver Jesus. Mas onde?

Neste quinto e último Domingo da Quaresma, em todos os textos, temos uma mensagem que nos fala da necessidade de transformação. Transformação constante, porém, algo muito diferente de falta de opinião própria, de instabilidade emocional ou falta de personalidade.

Sempre que há oportunidade, falamos sobre esse tema, pois ele é central em nossa religião. Em toda Bíblia encontramos passagens que nos falam sobre essa necessidade de estarmos abertos às boas mudanças, aos bons sentimentos, ao amor fraterno.

No futuro, quando estivermos em nossa morada eterna, como nos diz o texto de Jeremias, ninguém mais vai precisar ensinar ao outro sobre Deus, sobre como conhecê-lo, pois estaremos em contato diretamente com Ele. Todavia, enquanto aqui estivermos, haverá essa necessidade. Precisamos nos dedicar ao estudo das Escrituras, precisamos nos dedicar em conhecer a vontade de Deus para nossa vida.

No texto do Evangelho de hoje, Jesus faz uma comparação utilizando-se da figura do grão de trigo. Toda semente que é semeada, precisa deixar de ser semente para ser uma nova planta. A semente morre e renasce como um novo ser, uma planta, que dará outras sementes e assim perpetuará a sua espécie.

Como cristãos, precisamos ter em mente que nossa vida aqui na terra precisa sempre cumprir esse ciclo de morrer e renascer, várias vezes, em muitas coisas. Precisamos morrer para o ódio e o rancor que habitam em nós e renascermos para a tolerância e o amor fraterno, precisamos morrer para o egoísmo e renascermos para a partilha e assim por diante. Precisamos sempre morrer para as nossas negatividades e renascer para o que é positivo e construtivo.

Alguém poderá perguntar o porquê dessa necessidade e a resposta vem no próprio texto do Evangelho:

“Entre o povo que tinha ido a Jerusalém para tomar parte na festa, estavam alguns não-judeus. Eles foram falar com Filipe, que era da cidade de Betsaida, na Galiléia, e pediram: — Senhor, queremos ver Jesus.” (Jo 12.20.21)

Os “não-judeus” citados no texto, queriam ver Jesus e pediram a Filipe que os apresentassem a Ele. Em nossos dias, as pessoas que não fazem parte da igreja também querem ver Jesus. Mas onde? Elas querem ver Jesus em nós, em nossas atitudes, em nossas palavras, em nossa ética, em nossa moral. Sem farisaísmos, nem fanatismos, pois isso não faz parte da nossa tradição, precisamos entender que somos diferentes. Não em coisas supérfluas, superficiais ou desnecessárias, mas somos (ou deveríamos ser) diferentes na forma como reagimos em nossa sociedade, na forma como nos posicionamos frente às injustiças, ao descaso, ao cuidado com a criação. Precisamos ser diferentes por dentro, de dentro para fora, pois como Jesus mesmo disse, o mal não é o que entra em nossa boca, não é o que comemos, mas o que dizemos, o que fazemos, o que cremos, o que pensamos, pois isso vem do nosso ser, do nosso coração, da nossa forma de encarar a vida (Mt 15.11).

“Queremos ver Jesus” – essa frase precisa ficar gravada dentro de nós. As pessoas querem ver Jesus e elas só o verão se nós nos tornarmos cada vez mais parecidos com Ele. Se vivermos cada dia mais em sua presença, se nos deixarmos transformar pela ação divina do Espírito Santo de Deus dentro de nós. Essa mudança é contínua e gradativa. Mesmo que haja uma grande transformação em nossa forma de viver, sempre haverá o que precisa ser mudado, pois somos seres humanos e falhos. Essa consciência da nossa condição, ao invés de ser encarada como algo negativo, ao contrário, deve ser visto como positivo, como motivação para buscarmos sempre mais uma vida dedicada a Deus, em fraternidade e caridade para com toda a criação. Não adianta amarmos apenas as pessoas. Precisamos amar, cuidar e preservar toda a criação divina. O cristão precisa envolver-se com o Reino de Deus, na sua totalidade.

Terminamos lembrando um trecho de uma linda oração, para que nos animemos e nos motivemos nessa senda, que é o nosso caminhar para a evolução espiritual:

“E é morrendo que se vive para a vida eterna”

São Francisco de Assis

 Que Deus nos abençoe.

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro 5º. Domingo da Quaresma – 25/03/2012 - Jeremias 31.31-34; Salmo 51; Hebreus 5.1-10; João 12.20-33

O MAU USO DA LEI DE DEUS

Assim como nos textos deste domingo, também vemos nos dias atuais uma forte perversão da religiosidade e da própria Lei de Deus. Tal perversão, obra de nossa natureza humana, não é uma exclusividade de nosso tempo. Este mau uso, tanto no passado, quanto nos dias atuais acontece através do estelionato da fé e também pelos pregadores do ódio, que se multiplicam tanto nas portinhas de garagem, quanto na programação televisiva diária. Tais abominações, que andam difíceis de não serem encontradas por aí, quando não são as responsáveis diretas, ao menos alimentam fortemente a descrença na religião e até em Deus. Não é por acaso que vemos hoje surgir o chamado movimento neo-ateu que, ao contrário do ateísmo clássico, que simplesmente não acreditava e até buscava provar suas teorias contra a crença numa transcendência, esse neo-ateísmo se apresenta como o rancor contra toda e qualquer forma de crença religiosa e mantém uma pregação com forte caráter proselitista contra as crenças religiosas e suas respectivas instituições.

No Antigo Testamento vemos os Dez Mandamentos, que em si mesmos eram bons, especialmente se levarmos em conta a conjuntura em que eles foram escritos, onde o povo de Israel precisava de uma nova lei para evitar que repetissem a opressão egípcia. Infelizmente desde cedo nós temos interpretado e utilizado muito mal as Escrituras Sagradas e com o decálogo não foi diferente. Tudo isso já começa na preferência dada na maioria das igrejas em utilizar esta versão do decálogo apresentada no livro do Êxodo em que justifica o sábado através da narrativa mítica da criação e como mera obrigação religiosa que deve ser observada por fé, ao invés da versão apresentada no livro do Deuteronômio, onde o dia do descanso se justifica como liberdade da escravidão, ou seja, um entendimento muito mais “encarnado” sobre o porque é importante que as pessoas tenham seu dia de descanso e não sejam meramente máquinas para trabalhar, pois de nada adiantaria sair de uma escravidão e entrar em outra (mesmo que essa outra não fosse oficial). Não bastando a preferência por selecionar alguns textos em detrimento de outros (muitas vezes fazendo parecer que o mundo da Bíblia é um mundo completamente diferente do nosso), ainda temos a má interpretação do texto bíblico que é o que leva, por exemplo, muitas igrejas evangélicas, especialmente no Brasil, a utilizarem um dos mandamentos para quererem proibir o uso de imagens nas Igrejas, sendo que as imagens presentes na Igreja além de não serem efetivamente retratos do que está além, mas sim símbolos (principalmente do que foi visto aqui na terra, o que já desqualificaria a aplicação de tal mandamento neste caso), para ajudar no culto a Deus e não culto as próprias imagens, como era comum na época e até hoje. As imagens em si não são o alvo de proibição deste mandamento que visava combater sim a idolatria, a superstição, a crendice popular de se colocar um determinado artefato substituindo Deus. Vale lembrar que o uso de imagens, inclusive, está previsto na Bíblia como no Templo de Salomão (I Reis 6:23-35 e I Reis 7:25) e na própria Arca da Aliança (Êxodo 25:18-22). Inclusive, sendo uma boa prova de que o uso religioso de imagens não quer dizer culto ás imagens. Vemos a serpente que Deus manda Moisés construir (Números 21:8-9) e que quando os judeus, já pervertidos, passaram a adorar a serpente, o rei Ezequias manda destruir a mesma (II Reis 18:3-4), ou seja, a mesma imagem que foi utilizada dentro dos planos de Deus na época de Moisés, posteriormente foi utilizada de forma idólatra, constatando assim que não é o uso de imagens em si que é condenável,  mas sim o coração que troca Deus por amuletos.

Por sua vez o Apóstolo São Paulo nos alerta que nós fazemos o bem que queremos e o mal que não queremos e isto não é culpa da lei de Deus, mesmo que nós usemos a lei de Deus para o mal, condenando, julgando, excluindo as pessoas de nossas comunidades, oprimindo as pessoas por conta de sua cor, crença, orientação sexual, gênero, origem entre outros, não é culpa da lei de Deus, mas nossa e do pecado que nos domina. Então como podemos nos certificar que estamos cumprindo a lei de Deus? Cristo é quem nos permite cumprir a lei de Deus e é sempre através dele que podemos entender a lei que deve servir para o homem chegar a sua plenitude da vida e não para limitar a mesma. A lei só pode ser entendida e cumprida dentro da lógica do pensamento de Jesus e de seus mandamentos, como amar ao próximo como a nós mesmos e que nos amemos com a intensidade que Ele próprio nos amou, a ponto de entregar sua vida em nosso favor. Se nós, em nome do cumprimento da lei, estamos odiando, oprimindo, humilhando ou querendo fazer comércio com Deus, podemos até pensar que estamos seguindo a lei de Deus, mas só estamos, na verdade, seguindo a lei do pecado (Romanos 7:24). Isto derruba um dos grandes pecados da igreja atual: o legalismo, ou seja, a crença de que o cumprimento de determinado conjunto de regras nos dá um passe livre para o céu ou algum tipo de atestado de santidade. Por isso, não adianta ficar inventando um monte de proibições criando congregações onde não se possa usar determinada roupa, corte de cabelo, adereços ou frequentar determinados locais pois não é o maior número de proibições que nos fará uma pessoa melhor, mas apenas a atuação da Graça de Deus em nós. Para isso devemos deixar de lado nossa prepotência (mesmo que disfarçada de santidade) e deixar o Espírito Santo agir em nós.

Por fim vemos no Evangelho de hoje uma questão bem prática: até quando permitiremos que pessoas que roubam e oprimem em nome da fé dominem as igrejas? Até quando permitiremos que transformem a casa de Deus na cada do Inimigo, pois é ele quem rouba, mata e destrói? Quando vamos virar a mesa e botar pra correr de nossas casas e de nossas vidas, tais vendilhões do templo, pregadores da ganância que insistem em invadir nossas vidas e nossas casas através da televisão, do rádio, das leituras comprometidas em justificar a opressão e a exploração se utilizando de forma blasfema da lei de Deus?

Que nesta Quaresma reflitamos sobre como temos agido perante a lei de Deus: se temos preferido ouvir pregadores da graça de Deus ou pregadores do engano; se temos utilizado a lei de Deus para agir de forma a gerar vida em abundância ou de forma a gerar morte em abundância; se temos nos utilizado das escrituras para amar ou para odiar, para incluir ou para excluir, para ajudar ou para explorar. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ilumine com seu Espírito Santo para guardarmos a sua amorosa Lei pela graça maravilhosa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Morôni Azevedo de Vasconcellos

3º Domingo da Quaresma  - Êxodo 20:1-7 - Salmo 19:7-14 - Romanos 7:13-25 - São João 2:13-22

Deus Proverá

“Se alguém quer ser meu seguidor, que esqueça os seus próprios interesses, esteja pronto para morrer como eu vou morrer e me acompanhe.” Marcos 8.34

 Os textos selecionados para hoje, nos levam a uma profunda reflexão quaresmal: que depositemos todas as nossas angústias e incertezas nas mãos de Deus, na certeza de que Ele sempre providenciará o que precisamos.  Isso é muito radical e profundo. Requer de nós uma abstração e entrega total à Onipotência Divina. Para algumas pessoas, isso talvez não seja algo demasiadamente difícil, mas para a maioria de nós, sim, é um posicionamento muito forte diante do mundo, o qual precisamos exercitar dia a dia.

Particularmente, sempre que me encontro em situações complicadas, difíceis de resolver ou mesmo sem solução aos nossos olhos humanos, lembro-me de Abraão, o grande patriarca e pai da fé, quando enfrentou a provação que talvez tenha sido a mais difícil de sua vida: oferecer seu próprio filho em sacrifício. Penso em como somos mesquinhos e agradecemos tão pouco a Deus, diante de tudo o que Ele nos dá. Lembro-me de quantas vezes queremos resolver situações que apenas Ele tem o poder para tal e percebo minha total dependência do Altíssimo. Pessoas pró-ativas, como eu sou, acostumadas a resolver tudo, a tomar iniciativa em tudo, também defrontam-se com a sua impotência diante de situações onde apenas o Onipotente pode agir. Nessas horas, sempre me vêm à mente as sábias palavras de Abraão para Isaque: “Deus proverá.”

Especialmente nos dias de hoje, onde tanto lixo teológico é jogado em nossos ouvidos, onde os religiosos são ensinados a serem crianças birrentas diante de Deus, tudo exigindo e determinando, como se Ele fosse empregado do ser humano, acredito que precisamos muito mais nos entregar aos cuidados Daquele que nos conhece desde o ventre materno e cuida de nós em todas as situações. Precisamos ter mais humildade para aceitarmos a grandeza do Divino e mais fé, para nos entregarmos aos seus cuidados em todas as situações: naquelas que nós mesmos podemos resolver, pedindo sua orientação em nossas escolhas e também nas situações que fogem ao nosso controle, que fogem à nossa alçada humana, pois Ele é o mesmo Deus, desde a eternidade. Ele curou, fez milagres, interviu na história humana no passado e ainda hoje, e por todo o sempre, assim o fará. Ele cuida de nós e sempre quer o nosso bem. Nada pode nos separar do seu amor e é por isso que temos força para perseverar: a nossa força vem Dele, que nos ama incondicionalmente. A nossa fé não vem de nós mesmo, mas vem Dele e é por isso que precisamos pedir e Ele que aumente a nossa fé e nos abrirmos para isso, lembrando que justamente as provações é que nos fazem ficar mais fortes. Nas horas mais difíceis da vida, na hora em que somos mais tentados, quando atravessamos os maiores desertos, Ele está conosco e nos guia até nosso destino. Basta apenas que nos entreguemos aos seus cuidados. Seguir Jesus requer de nós abnegação e entrega total aos planos de Deus. Os nossos interesses devem ser esquecidos para dar lugar aos interesses do Reino de Deus. Agindo assim, tudo o mais nos será acrescentado.

Que nessa Quaresma, aprendamos a confiar mais na providência divina; que aprendamos a nos entregar totalmente aos cuidados do Criador e que reconheçamos a nossa missão e o nosso lugar neste mundo.

Que nos momentos mais difíceis que passarmos, nas lutas, provações e tentações, lembremo-nos que muito mais sofreu Cristo, um inocente em lugar de pecadores. Que também nos lembremos que nada poderá nos separar de Deus e que quando tudo parecer perdido e sem solução, quando não mais pudermos intervir nem resolver, Deus proverá.

“Deus proverá”. Que esta seja a nossa fé, a nossa confiança. Que o Altíssimo esteja conosco em todos os momentos e que nós jamais nos afastemos Dele.

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro - 2º. Domingo na Quaresma, 04/03/2012 – Gênesis 22.1-14; Salmo 16.5-11; Romanos 8.31-39; Marcos 8.31-38

Quaresma: tempo de caminhar no deserto

Mais uma vez estamos na Quadra da Quaresma, que teve seu início na última quarta-feira, à qual denominamos “Quarta-feira de Cinzas” (para maiores explicações sobre essa data, consulte o Boletim 83). Serão quarenta dias, nos quais relembraremos a saga de Jesus no deserto e a nossa própria caminhada pela vida, pelo nosso deserto.

O deserto geográfico é um local aparentemente inóspito, entretanto, ele abriga em si uma enorme riqueza de vida, embora alguns considerem como escassez. Os pequenos seres que habitam o deserto, passam o dia escondidos, devido à alta temperatura, para economizar energia e poderem circular durante a noite. Os vegetais que lá habitam, também se adaptaram a essas condições de vida e, assim como os animais, precisam de uma quantidade mínima de água para sobreviver.

A Quadra da Quaresma é uma das épocas do ano litúrgico nas quais paramos (ou deveríamos parar) para meditar sobre nossas vidas, sobre nós mesmos. É uma época de penitência, de introspecção. Os cristãos primitivos faziam muitos jejuns nesse período e procuravam uma vida de maior recolhimento, para meditar sobre sua vivência cristã e se preparar melhor para a Páscoa.

Atualmente, não damos tanta importância a essa época como nossos antepassados davam, mas não deveria ser assim. Precisamos reavaliar e resgatar certos valores e costumes importantes que perdemos, como por exemplo ir ao Ofício Penitencial de Quarta-feira de Cinzas, momento único no ano litúrgico e que, infelizmente, é negligenciado pela maioria dos cristãos.

Ao passar quarenta dias no deserto (e aqui lembramos que o número quarenta, quando aparece na Bíblia, é cercado de simbolismos), Jesus deparou-se com toda a sua humanidade. Essa interiorização o fez ficar frente a frente às tentações mais comuns e perigosas que nos assediam todos os dias: orgulho, riqueza, poder, fama. Todos os nossos “demônios interiores” apareceram para Ele na esperança de fazê-lo cair. Mas Jesus não caiu e nos mostrou que, se estivermos bem alicerçados, bem embasados, se formos bons conhecedores da Palavra de Deus, poderemos resistir e vencer qualquer “demônio” que venha nos tentar, qualquer um.

Que nessa Quaresma possamos entrar em nosso “deserto pessoal”, que nos defrontemos com todos esses nossos “demônios interiores” e, pelo poder da Palavra de Deus, vençamos todos eles. Que possamos descobrir todas as qualidades e potencialidades que temos e que estão escondidas nesse nosso deserto e que passemos a usá-las para honra e glória do Senhor. Que até a próxima Páscoa possamos nos tornar pessoas mais fortes, mais compreensivas, com mais solidariedade e amor pela criação. Que a nossa passagem pelo deserto nos ensine a sermos cada dia pessoas melhores, pois é para isso que aqui estamos.

Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro

1º domingo da Quaresma – 26/02/2012 - Gênesis 9.8-17; Salmo 25.1-10; 1 Pedro 3.18-22; Marcos 1.9-13